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O MENDIGO E A CARTEIRA (Crônica)

           Numa bela manhã de outono João da Silva, mendigo profissional estava caminhando pelo parque onde morava quando, de súbito, encontrou uma carteira. Com seu corpo debilitado pela fraqueza causada por falta de alimento, agachou-se e recolheu seu precioso achado, não pôde acreditar no que viu. A carteira estava recheada. Assustado, correu para seu esconderijo no fundo do parque, morava numa caverna e dizia que era seu palácio.          Guardou a carteira num buraco na pedra e ficou imaginando o que faria com o dinheiro. Desejava muitas coisas, “talvez o dinheiro nem desse para realizar seus desejos.” Ficou na toca matutando, sobre qual destino daria ao dinheiro. Pensou, repensou e chegou à conclusão que iria comprar um barraquinho na favela, depois se lembrou que precisava de roupas novas e cobertor, mas pensando melhor, compraria comida também; estava cansado de viver pedindo e passando ...

MANUEL MANDUCAIA (Crônica)

         Manoel Manducáia era um caboclo que trabalhava na fazenda de Bento Guilhermano, nascera ali e ali crescera sem nunca ter saído dali. As poucas letras que aprendera fora dona Lurdes, mãe de Bento, que havia ensinado. Ela tinha uma afeição especial pelo moleque e fazia de tudo para que ele ficasse perto da casa grande.          Manoel cresceu e tornou-se o braço direito de Bentinho, seu amigo de infância e agora patrão. Sempre que viajava, Guilhermano convidava o amigo capataz para ir com ele, porém Manducáia fugia da cidade como o diabo da cruz. Para ir à cidade teria que vestir roupas apertadas e sapato, gostava mais de ficar descalço e sentir a força da terra sob seus pés.          De volta de uma dessas viagens, Bento trouxera um canivete e um cachimbo com o nome de Manducáia gravado. A princípio, os presentes ficaram guardados como verdadeiras rel...

ESQUISITISSES DE UM VELHO

         Um cesto de palha (todo furado), uma vara de pescar (sem anzol), uma panela (sem cabo), são algumas das quinquilharias que o velho Sílvio Ferreira guarda em seu pequeno quarto que também é uma espécie de museu. Silvio mora no único quarto que restou de uma casa abandonada no caminho da roça para a cidade. As paredes feitas de pau-a-pique foram, com o tempo, esfareladas.            Quando chove, ele pega o barro e vai consertando seu quartinho, não tem muita pressa. Tapa um buraco e dá uma pitada no cachimbo, se passa alguém pela estrada e pára para um dedinho de prosa, o velho Ferreira entrega-se à conversa e, se a pessoa está sem pressa, o barro endurece.          A entrada de sua casinha está um brinco, toda enfeitada. Os buracos foram todos tapados e ele pôde pendurar seus bibelôs para enfeitar a parede. Tem uma roseta de espora que um cavaleir...

ESCRITA INVISÍVEL (Crônica)

         Maria Isabel, filha única do fazendeiro Justino Emenergildo, caiu nas graças do boiadeiro Chico Maltino. De bom papo e muito sedutor, Chico conquistou a mocinha dedicando-lhe poesias. Poesias estas que copiava de um livrinho muito velho que havia encontrado no banheiro de uma estação de trem numa das viagens que fizera para negociar gado com um fazendeiro que morava lá para as bandas de Cachoeiro do Itapemirim.          Isabel logo ficou encantada com a audácia do sujeito, era um desafio e um ato de muita coragem da parte dele, pois se seu pai descobrisse tal atrevimento, na certa o cabra haveria de pagar caro.          Todas as manhãs ele mandava-lhe um bilhetinho escrito num papel ordinário, depositando total confiança em Zezinho, filho da cozinheira, para executar a tarefa de entregar-lhe a declaração de amor que fazia questão de renovar todos os dia...

PEIXEIRA AFIADA

  Risonildo da Silva saiu de sua casa ainda de madrugada, queria aproveitar o frescor da manhã para levar suas quatro vacas magrelas para um pasto que conseguira emprestado. Pois o seu estava muito seco devido à estiagem, por sorte suas criações ainda não tinham morrido.          Foi montado em seu jegue Corisco abrindo caminho para que as vacas o seguissem, estas, apesar de fracas, marchavam relutantes, parando hora aqui, hora ali para comer um capinzinho que encontrassem.          O sol começava a raiar quando Risonildo apeou do jegue e retirou do farnel que sua mãe havia lhe preparado, um pouco de cuscuz e uma garrafa com café, àquela hora o café já havia esfriado, mas Risonildo estava com tanta fome que não se importou com a temperatura do café. O que mais queria era forrar o estômago e seguir viagem. Retirou a rolha da garrafa e tomou o café no gargalo.      ...

LILI TERNURINHA (Crônica)

    Lili Ternurinha era uma moçoila muito dadivosa, seu nome verdadeiro todos desconheciam, porém sua caridade e carinhos eram conhecidos por todos os homens do pequeno lugarejo onde morava.          Viera morar ali trazida por um caminhoneiro, que fora fisgado por ela numa noite quente e abafada. Quando ele estava banhando-se tranqüilamente numa cachoeira, ouviu um barulho, alguém havia se jogado na água; era Lili cansada de viver, tentando aliviar seu sofrimento. Frederico Silvério não pensou duas vezes, correu em direção a suicida tentando salvá-la, seu corpo nu escorregava das mãos de Frederico e afundava novamente. Lutaram por algum tempo enquanto ela ainda tinha força, depois, cansada cedeu abraçando o pescoço do seu salvador.          Este, arfando carregou-a para fora da água, cansados deitaram na relva, ela tentou escapar, mas foi retida pelo abraço forte e mãos ágeis do...

ILUSÃO DE ÓTICA (Crônica)

         Desde muito pequeno Paulo Vítor demonstrou ser bastante curioso, olhava tudo com interesse e a cada descoberta seu interesse pelas coisas desconhecidas aumentava. Principalmente coisas distantes, intocadas e, não raramente, as proibidas.          Seu quarto mais parecia um laboratório, tinha de tudo, lupa, binóculos, microscópios, etc. Seu passatempo favorito, na infância, era caçar bichinhos no jardim. Agora, já na adolescência, desenvolveu o hábito de observar pessoas, preferivelmente mulheres. Com sorte a janela de seu quarto tem uma vista privilegiada, dali dá para ver com perfeição os quartos de três vizinhas que são observadas diariamente por ele.        Infelizmente, a casa de melhor ângulo estava desocupada, mas no ano passado mudou-se para lá uma linda moça, Paulo esteve observando-a enquanto a mudança chegava, era loira e parecia uma deusa, vestia um...